A vila organizava-se em torno da Capela de Santo António, "sobranceira ao mar", ponto de reunião dos banhistas ao pôr do Sol e ao despontar da Lua. Duas praias balneares dividiam a povoação: a do sul, "perfeitamente abrigada por uma cortina de rocha que a rodeia como um biombo", era a mais agradável; a do norte, com casas pequenas "quase todas de um só pavimento, abarracadas", servia uma população mais modesta.
A presença ocasional da família real – a rainha D. Maria Pia tomara banhos em 1864, D. Amélia visitara a vila em 1891 – conferia alguma distinção social à Ericeira, embora a vila permanecesse essencialmente um refúgio económico onde "uma família de quatro pessoas" se alojava "comodamente por seis libras por mês". A carreira diária de diligências para Sintra, estabelecida em 1891, facilitava o acesso à "elegância lisboense", atraindo progressivamente a burguesia da região de Lisboa e do Oeste.
O que verdadeiramente fascina Ramalho na Ericeira não é a paisagem nem as praias, mas a peculiar civilização marítima que ali encontra. A "população indígena, composta principalmente de marítimos", era "pacífica e abastada", o que protegia o banhista da "exploração de que é objecto nas terras em que o habitante é indolente e pobre".
Mais notável ainda: visitando as casas ao anoitecer, o escritor observa através dos vidros os sinais de uma "vida serena, bem administrada, com um orçamento regular, com hábitos adquiridos, com costumes de família" – o candeeiro de sala, o tapete sobre a mesa do centro, a gaiola envernizada, o cabide, o vaso com flores, o espelho. E então ocorre o fenómeno que Ramalho considera "extraordinário e raríssimo em Portugal": em duas casas chegou a avistar "alguns livros".
Numa nação onde nas pequenas casas da província "o livro é um objecto de luxo que ninguém se permite" e "o hábito tão moralizador da leitura aos serões" é "curiosidade que ninguém tem, dignidade que ninguém professa", a Ericeira apresenta-se como excepção civilizacional. O escritor atribui esta "inclinação artística" à "educação que os marítimos adquirem nas viagens", aliada à "natureza especial do solo, que pela sua aridez em torno da vila obriga o habitante a recolher-se e a procurar no interior da sua casa as distracções que o campo e a paisagem lhe não facultam".
Hoje, o visitante da Ericeira pode ainda reconhecer a vila descrita por Ramalho – embora transformada em capital europeia do surf, mantém o carácter de povoação marítima organicamente ligada ao oceano. O asseio que impressionou o cronista oitocentista persiste nas ruas caiadas, a Capela de Santo António permanece "sobranceira ao mar", e a cultura marítima continua central à identidade local.
Observando com os "olhos de Ramalho", convida-se à reflexão sobre como a relação com o mar molda mentalidades: os marítimos da Ericeira, pela sua abertura ao mundo trazida pelas viagens e pelo recolhimento doméstico imposto pela aridez do território, criaram uma síntese rara entre cosmopolitismo e intimidade, entre aventura oceânica e cultura livresca. Pode-se questionar se essa "inclinação artística" que Ramalho detectou sobrevive numa era em que o turismo substituiu a pesca, e se as casas ericeirenses ainda guardam, para além das pranchas de surf, aqueles "alguns livros" que pareceram ao escritor tão raros e tão preciosos.