Almeida Garrett: O Homem que Reinventou Portugal nas Letras
Quando João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett expirou em Lisboa a 9 de dezembro de 1854, aos cinquenta e cinco anos, Portugal perdia o seu mais completo artista oitocentista – poeta, dramaturgo, romancista, jornalista, político e legislador numa fusão inseparável entre o homem de Estado e o criador literário. A sua morte encerrava uma existência extraordinária que havia transformado radicalmente a literatura portuguesa, introduzindo o Romantismo, refundando o teatro nacional e criando tanto o lirismo como a prosa modernos.
O Porto, a Infância e as Raízes da Imaginação
Nascido na cidade do Porto a 4 de fevereiro de 1799, no seio de uma família burguesa, o menino que viria a transformar-se no Visconde de Almeida Garrett recebeu inicialmente apenas o nome João Leitão da Silva. Os patronímicos que o imortalizariam – Baptista (em honra do padrinho), Almeida (da avó materna) e Garrett (da avó paterna, de origem irlandesa) – seriam acrescentados posteriormente.
A infância decorreu até aos dez anos entre duas propriedades familiares em Vila Nova de Gaia: a Quinta do Castelo e a Quinta do Sardão. Nestes espaços rurais, o pequeno João ouviu modinhas populares e composições da tradição oral, contadas e cantadas por duas criadas que marcariam indelevelmente a sua imaginação: a velha Brígida, que ele recordaria pelas suas "histórias da carochinha" em Viagens na Minha Terra, e a mulata Rosa de Lima, evocada no prefácio de "Adozinda" como recitadora "de maravilhas e encantamentos, de lindas princesas, de galantes e esforçados cavaleiros".
Destas recordações infantis brotaria o gosto pelas tradições nacionais que o levaria desde muito jovem a compilar textos posteriormente utilizados na edição do Romanceiro e do Cancioneiro, e incluídos em algumas das suas peças teatrais.
O Refúgio Açoriano e a Formação Clássica
O progenitor, António Bernardo da Silva, funcionário superior da Alfândega nascido na ilha do Faial, decidiu em 1809 que a família procurasse refúgio na Ilha Terceira antes que as tropas napoleónicas do general Soult tomassem o Porto durante a segunda invasão francesa. Nos Açores, João Baptista recebeu uma educação clássica e iluminista – com leituras de Voltaire e Rousseau que lhe ensinaram o valor da Liberdade – orientada por dois tios notáveis: João Carlos Leitão e, sobretudo, o poeta e humanista D. Frei Alexandre da Sagrada Família, que fora Bispo de Malaca e de Angra, e bispo eleito do Congo e de Angola.
Estudou Latim e Grego, literatura clássica e filosofia sob a influência dos tios e desejo dos progenitores. O jovem chegou a pensar abraçar a carreira eclesiástica, ideia que depressa abandonou por não se sentir vocacionado para o sacerdócio. Nas ilhas começou a escrever sob o pseudónimo Josino Duriense, ainda influenciado pelo estilo clássico que então dominava.
Coimbra: O Despertar Liberal e Maçónico
De regresso ao continente, matriculou-se em 1817 no curso de Leis da Universidade de Coimbra, foco de fermentação das ideias liberais. Na cidade do Mondego fundou uma sociedade maçónica com Manuel da Silva Passos e José Maria Grande, estabeleceu um teatro académico e fez representar o drama Xerxes (que se perdeu) e a tragédia Lucrécia. Na mesma época intentou a escrita de duas outras tragédias, Afonso de Albuquerque e Sofonisba, que deixou incompletas. Finalista em 1820, recebeu com entusiasmo e otimismo a notícia da revolução liberal que então eclodia. Concluída a formatura em Direito, partiu para Lisboa onde participou ativamente no movimento constitucional.
Primeiros Amores, Primeiras Perseguições
Em 1821, durante a representação da tragédia Catão, conheceu aquela que viria a ser sua esposa: Luísa Midosi, prima dos seus amigos Luís Francisco e Paulo Midosi. Nesse mesmo ano publicou o poema "Retrato de Vénus" e foi acusado nas páginas da Gazeta Universal pelo Padre José Agostinho de Macedo de ser "materialista, ateu e imoral". Em Coimbra foi suspeito de abuso de liberdade de imprensa pelas respostas que dera em sua defesa no periódico Português Constitucional Regenerado, acusação da qual saiu ilibado no início de 1822.
Este ano de 1822 revelou-se extraordinariamente fecundo. Fundou com o amigo Luís Francisco Midosi um jornal dedicado às senhoras portuguesas: O Toucador: periódico sem política, que apesar do subtítulo continha inúmeras referências mais ou menos subtis aos acontecimentos nacionais. Foi também nomeado funcionário do Ministério do Reino e casou com Luísa Midosi. Não eram alheios aos conteúdos da folha as sessões da Sociedade Literária Patriótica, então criada, da qual faziam parte figuras de relevo do Partido Constitucional.
O Primeiro Exílio: Inglaterra e França (1823-1826)
Em 1823, na sequência do levantamento miguelista conhecido como Vila-Francada e do restabelecimento do absolutismo, foi obrigado a abandonar o cargo na Secretaria dos Negócios do Reino. Preso na Cadeia do Limoeiro em Lisboa, partiu pouco tempo depois para o exílio político: primeiro Inglaterra, na cidade de Birmingham, depois França, no Havre.
Garrett e a família viveram com grandes dificuldades, conseguindo o poeta apenas emprego num banco como correspondente comercial. Contactou então com a literatura romântica – Byron, Lamartine, Victor Hugo, Schlegel, Walter Scott, Madame de Staël –, redescobriu Shakespeare e, influenciado pelas recolhas de cancioneiros populares, começou a preparar o Romanceiro.
Entretanto escreveu e publicou em Paris os poemas Camões (1825) e D. Branca (1826), primeiras obras portuguesas de cunho romântico, fruto da metamorfose estética operada pelas novas leituras durante o exílio inglês. Em 1826 publicou também o Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa, como introdução à antologia Parnaso Lusitano.
O Regresso Efémero e o Segundo Exílio (1826-1832)
Com a morte de D. João VI em 1826, o escritor foi amnistiado. Regressou apenas depois da Outorga da Carta Constitucional e da abdicação de D. Pedro IV em sua filha D. Maria da Glória, mostrando-se confiante na Carta, mais moderada que o programa vintista. Em Lisboa fundou com Paulo Midosi o jornal O Português e escreveu n'O Cronista, dedicando-se ao jornalismo político.
O poeta e os dois irmãos Midosi foram presos em 1827 devido aos artigos defensores do liberalismo. Em 1828, com o retorno de D. Miguel a Portugal e a retoma do poder absoluto, Garrett viu-se obrigado a partir para um segundo exílio inglês. Desta vez, tendo por emprego o cargo de secretário particular do Duque de Palmela, também exilado, fixou-se em Plymouth.
Em Londres publicou Adozinda e Bernal Francês (mais tarde inseridos no Romanceiro) e a Lírica de João Mínimo (1829), que reunia poemas escritos desde a juventude, ainda de tonalidade arcádica. No mesmo ano, novamente com Paulo Midosi, redigiu o jornal O Chaveco Liberal e iniciou a escrita de Da Educação, tratado que visava a instrução da jovem rainha D. Maria II para o cargo que ocupava. As suas preocupações políticas levaram-no a reunir no volume Portugal na Balança da Europa (Londres, 1830) os artigos publicados n'O Português, onde analisava a história da crise portuguesa e exortava à unidade e à moderação. O seu percurso jornalístico continuou em 1831, nas páginas d'O Precursor. Preparou em Paris, com outros exilados, a expedição que, partindo dos Açores, visava o fim do miguelismo.
A Guerra Liberal e o Cerco do Porto (1832-1834)
Em 1832, integrou com Alexandre Herculano o corpo académico de voluntários que constituiu na Ilha Terceira a oposição liberal. Foi um dos expedicionários que em julho daquele ano desembarcaram no Mindelo e libertaram o Porto. Durante o cerco, iniciou a escrita do romance O Arco de Sant'Ana que, segundo afirmava, se baseava num antigo manuscrito encontrado no Convento dos Grilos, onde os expedicionários se aquartelavam.
O romance descreve uma sublevação popular contra o Bispo do Porto – senhor da cidade – coadjuvada por D. Pedro I e liderada por um jovem estudante posto à frente da população burguesa que enfrenta o suserano. É quase impossível não estabelecer um paralelo entre a narrativa medieval e os acontecimentos coevos da escrita, com D. Pedro IV à frente do batalhão de estudantes saídos da burguesia, lutando contra a prepotência absolutista. O primeiro volume só foi publicado em 1845 e o segundo apenas em 1850, traçando o autor, no primeiro capítulo do tomo tardio, os motivos que demoraram a edição, a que decerto não foi alheia a revolta da Maria da Fonte e a guerra civil patuleia de 1846.
Colaborou ainda com Mouzinho da Silveira nas reformas administrativas que revolucionaram a estrutura do Estado português.
O Consulado Belga: Terceiro Exílio Voluntário (1834-1836)
Em 1834, numa espécie de terceiro exílio motivado pelo crescente desencanto em relação à política portuguesa – a divisão dos liberais, a corrida aos cargos públicos –, foi nomeado Cônsul-Geral e Encarregado de Negócios de Portugal na Bélgica. Naquele país entrou em contacto com a língua e literatura alemãs (Herder, Schiller e Goethe), que muito influenciaram o seu estilo literário e concepção de arte. Exerceu também funções diplomáticas em Londres e em Paris durante este período.
A Revolução de Setembro e a Refundação do Teatro Nacional (1836-1841)
De regresso a Portugal em 1836, separou-se de Luísa Midosi e passou a viver com Adelaide Pastor Deville, com quem teve uma filha. Fundou o jornal O Português Constitucional. Após a Revolução de Setembro, foi eleito deputado às cortes constituintes, tornou-se membro da comissão de reforma do Código Administrativo e foi nomeado por Passos Manuel Presidente do Conservatório de Arte Dramática e Inspetor-Geral dos Teatros.
Nesse mesmo ano dirigiu à rainha D. Maria II o seu projeto para a criação de um Teatro Nacional, intervindo no projeto do futuro Teatro Nacional de D. Maria II. O programa para a renovação da Arte em Portugal está descrito no prefácio de Um Auto de Gil Vicente (1838), primeira das suas contribuições para o repertório de peças com fundas raízes nacionais que considerava imprescindíveis para criar no povo português o amor pelo teatro. A esta peça seguir-se-iam Filipa de Vilhena (representada em 1840, o mesmo ano em que foi nomeado Cronista-Mor do Reino), O Alfageme de Santarém (1842) e Frei Luís de Sousa (1843).
A vida dividia-se entre a escrita e a política, mas foi esta última que lhe causou maiores dissabores: o ministro António José de Ávila propôs em 1841 a dissolução do Conservatório; o deputado Almeida Garrett respondeu-lhe diretamente – no dia seguinte foi demitido de todos os seus cargos.
O Período Criativo Mais Intenso (1843-1850)
Em 1843, a Revista Universal Lisbonense publicou em folhetins a primeira parte do romance Viagens na Minha Terra, inspirada por um passeio ao Ribatejo numa visita a Passos Manuel, então na oposição ao governo de Costa Cabral. A obra, cuja edição em volume só ficou concluída em 1846, é considerada pela crítica como o início da prosa moderna em Portugal – um livro "inclassificável" que mistura ensaio, crónica, romance e digressão filosófica.
A primeira representação de Frei Luís de Sousa, com Garrett no papel de Telmo, aconteceu também em 1843, no Teatro da Quinta do Pinheiro. A tragédia foi publicada no ano seguinte, três anos após a morte de Adelaide Deville (1841), episódio que inspiraria a obra. Foi quando conheceu Rosa Montufar Barreiros, viscondessa da Luz, por quem se apaixonou profundamente. A ela dirigiu cartas de exacerbado desejo e ela lhe inspirou o volume Folhas Caídas.
No ano de 1843 publicou também o primeiro volume do Romanceiro, recolha de poesias de tradição popular. Em 1845, lançou o livro de poesias líricas Flores sem Fruto e o primeiro volume de O Arco de Sant'Ana.
Nos anos do cabralismo e seguintes, afastado da política, frequentou a sociedade elegante e escreveu as peças Tio Simplício, Falar Verdade a Mentir e Um Noivado no Dafundo. Em 1848 foi representada no Teatro de D. Maria II A Sobrinha do Marquês, logo a seguir publicada.
A Regeneração e os Últimos Anos (1851-1854)
Com Alexandre Herculano, Rodrigues Sampaio, Rebelo da Silva e José Estevão, foi nomeado em maio de 1851 para a redação de um novo projeto de lei eleitoral. Depois de um período de distanciamento face à vida política, regressou com a Regeneração, movimento que prometia conciliação e progresso. Nesse ano fundou o jornal A Regeneração, aceitou o título de Visconde de Almeida Garrett e reassumiu o papel de deputado, colaborando na proposta de revisão da Carta Constitucional.
Em junho foi nomeado ministro plenipotenciário para as negociações junto à Santa Sé. O governo francês concedeu-lhe o diploma de Grande Oficial da Legião de Honra. O sonho de ver publicada a sua obra de recolha etnográfica concretizou-se enfim com a publicação dos tomos II e III do Romanceiro.
Novamente eleito deputado em 1852, escreveu e leu na Câmara o "Discurso de Resposta ao Discurso da Coroa", tendo sido logo a seguir nomeado Par do Reino. Tornou-se, por breve período, Ministro dos Negócios Estrangeiros, lugar do qual se demitiu pouco tempo depois. Publicou diversos Estudos.No ano seguinte regressou à administração do Teatro Nacional, mas demitiu-se a pedido dos atores e autores. Em 1853 publicou duas edições de Folhas Caídas (a segunda com o título Fábulas: Folhas Caídas), livro de poesias líricas recebido com algum escândalo: o poeta era então uma figura pública respeitável (deputado, ministro, visconde) que se atrevia a cantar o amor desafiando todas as convenções, e muitos souberam ver na obra ecos da paixão pela viscondessa da Luz.
Estava já muito doente quando começou a escrever aquele que seria o seu terceiro romance, Helena. Apesar de o estado de saúde se agravar dia a dia, apresentou ainda o Relatório e Bases para a Reforma Administrativa e proferiu, na Câmara dos Pares, a resposta ao Discurso da Coroa de 1854.
O Legado Imortal
Iniciador do Romantismo português, refundador do teatro nacional, criador do lirismo moderno, criador da prosa moderna, jornalista, político, legislador – Almeida Garrett permanece como exemplo de aliança inseparável entre o homem político e o escritor, o cidadão e o poeta. É considerado por muitos o escritor português mais completo de todo o século XIX, porquanto legou obras-primas na poesia, no teatro e na prosa, inovando a escrita e a composição em cada um destes géneros literários.
A sua existência foi uma sucessão de exílios – alguns forçados, outros voluntários – que paradoxalmente lhe permitiram transformar Portugal num país literariamente moderno, ensinando os portugueses a olharem para as suas tradições populares com olhos românticos, a assistirem a teatro que falava da sua história e dos seus dilemas, e a lerem prosa que misturava o sublime e o quotidiano numa voz inconfundivelmente nacional e simultaneamente universal.