Por detrás da pequena estação do caminho de ferro – a linha férrea chegara ao Ribatejo transformando a relação da vila com Lisboa – havia "um belo arraial de carroças, de diligências, de char-à-bancs e de caleches", envolvidos em "reflexos de ouro" pelo sol a prumo, iluminando "de uma leve polvilhação diamantina" tudo: os trens, as folhas dos eucaliptos, os arreios das mulas, os andrajos dos mendigos e as "características pantalonas do camponês estremenho, feitas de remendos em todas as nuances do azul da tecelaria de Alcobaça".

A Azambuja que Ramalho observa é uma vila com história secular – recebera foral em 1272 de D. Rui Fernandes, 4.º Senhor e Alcaide, sendo então já uma comunidade estruturada com alvazis municipais, tabelião e prior –, situada na antiga fronteira do Tejo durante a Reconquista Cristã. Fundada em 1199 quando D. Sancho I doou a vila ao cruzado flamengo D. Rolim, Azambuja ("zambujeiro" em árabe) desenvolvera-se como pólo agrícola ribatejano, mantendo ao longo dos séculos a sua vocação cerealífera e a identidade rural que Ramalho ainda documenta no século XIX.

O que verdadeiramente captura a atenção melancólica do cronista é o destino do "famigerado pinhal da Azambuja". Aquele pinhal que "noutro tempo" alimentara o imaginário romântico português como pendant nacional ao "terror melodramático das covas de Salamanca" – refúgio de bandidos, cenário de assaltos, espaço de aventuras picarescas com Camila manietada, dobrões e bacamartes – restavam agora "apenas alguns pinheirotes tristes, magros, nostálgicos". A floresta fora devastada: "pelada e rota, cheia de remendos e de calvas", já não mandava aos ecos nem ao viajante "senão um gemido assobiado e roufenho de bosque moribundo, rachado às machadadas".

O pinhal agonizante despegava "de quando em quando alguma pinha seca, que desaba do alto e rola surdamente pelo solo fofo de caruma, como a triste lágrima das coisas". Esta imagem poderosa – a pinha caída como "lágrima das coisas" – revela toda a dimensão elegíaca do olhar de Ramalho: não chora apenas a destruição ecológica (preocupação ambiental avant la lettre), mas sobretudo a perda de um Portugal mítico, aventureiro, literário.

O pinhal não era apenas floresta: era topos romântico, espaço identitário, memória colectiva. A sua destruição pelas "machadadas" do progresso simboliza a morte de uma certa ideia de Portugal – aquele que ainda guardava a memória dos bandidos, da aventura, do perigo, do pitoresco nacional.

Hoje, o visitante da Azambuja encontra uma vila profundamente transformada pela proximidade a Lisboa e pela integração na área metropolitana. Do pinhal que tanto comoveu Ramalho por estar moribundo já nada resta – foi completamente erradicado, substituído por campos agrícolas intensivos e urbanização dispersa. A estação ferroviária permanece, agora integrada na linha do Norte, e continua a ser o principal ponto de ligação da vila à capital.

O património histórico medieval – a matriz onde foi sepultada D. Maria Rolim, filha do fundador flamengo D. Rolim, e os vestígios da antiga organização municipal estabelecida no foral de 1272 – podem ainda evocar os séculos de história que antecederam a passagem de Ramalho.

Observando com os "olhos de Ramalho", pode-se reflectir sobre como a modernização oitocentista – a ferrovia, o desflorestamento, a integração económica – transformou irreversivelmente a paisagem ribatejana: aquelas "pantalonas de remendos azuis" desapareceram, o pinhal tornou-se memória literária, mas permanece a "loura planície" cerealífera que continua a definir a identidade agrícola do Ribatejo. Resta questionar se algo se ganhou com a destruição daquele pinhal que, mesmo moribundo, ainda conseguia chorar "a triste lágrima das coisas".