A estância termal, fundada por ordem da Rainha D. Leonor em finais do século XV após a monarca ter experimentado as virtudes terapêuticas das águas, consolidara ao longo dos séculos a sua vocação curativa. D. Afonso VI reconstruíra e ampliara o hospital termal, a família real e a corte visitavam as Caldas anualmente, e no século XIX – época áurea em toda a Europa para as estâncias termais – a vila tornara-se "local de eleição da classe abastada".

Mas Ramalho não esconde as carências: as Caldas não tinham a Trinkhalle magnífica nem a Conversations-haus de Baden, nem o Cursaal de Wiesbaden com o seu "pórtico jónico" e "arcada rodeada de lojas de luxo", nem teatro sumptuoso, nem galerias de pintura, nem grande hotel ou restaurante, nem pavilhões, cottages ou chalets.

O que possuíam, porém, era essencial: "óptimas árvores", o "belo parque chamado da Copa", a "linda avenida dos álamos", os choupos, as acácias e os pinheiros da mata – "a sombra suficiente, enfim, para se passar o dia todo na fresca oxigenação do ar livre", condição primordial no tratamento das "lisboetas anémicas, emurchecidas durante o Inverno na atmosfera mordente e definhante das salas e dos teatros". As casas mobiladas para alugar, apesar da "modéstia quase rudimentar do seu conforto interior", eram "frescas e bem lavadas de luz", a água potável da Quinta da Boneca era "muito boa", e a alimentação "simples e saudável" incluía as célebres cavacas, trouxas, queijinhos de ovos e pastéis de Marvão.

O excerto revela a ambivalência característica do pensamento de Ramalho: por um lado, a admiração confessada pelos modelos termais europeus (Baden, Wiesbaden) com a sua arquitectura monumental e infra-estruturas de luxo; por outro, o reconhecimento de que as Caldas possuíam o essencial – ar, água, sombra, simplicidade. O cronista valoriza sobretudo a "sociabilidade" que ali se praticava: "as praxes de sociabilidade entre os banhistas e os viajantes têm um carácter familiar particularmente afectuoso e simpático".

A gente indígena era "risonha e afável", a população forasteira concorria aos "pontos consagrados de reunião geral" – pela manhã ao parque da Copa onde funcionavam "debaixo das árvores" mesas de whist e boston, croquet e arquinho; de tarde na mata com os "jogos de jardim"; à noite no clube onde se dançava "desde as oito horas até à meia-noite". A única crítica é deliciosamente ligeira: "há talvez um quase nada de valsa a mais do que seria útil, e falta um lawn-tennis". Esta observação irónica encapsula o projecto civilizacional de Ramalho: modernizar Portugal segundo padrões europeus, mas sem perder a autenticidade nacional – menos valsa ociosa, mais desporto higiénico.

Hoje, o visitante de Caldas da Rainha encontra uma cidade que mantém a vocação termal e artística reconhecida pela UNESCO como Cidade Criativa. O Complexo Termal preserva o antigo Hospital Termal (o mais antigo hospital termal do mundo ainda em funcionamento) e o Museu do Hospital e das Caldas, onde se expõe o Livro do Compromisso da Rainha D. Leonor. O Parque D. Carlos I, sucessor do "parque da Copa" elogiado por Ramalho, é hoje considerado um dos mais ricos em biodiversidade do país, com o seu lago artificial e alamedas arborizadas desenhados pelo arquitecto caldense Rodrigo Berquó. O Museu José Malhoa, instalado no primeiro edifício português construído de raiz como museu, celebra o pintor naturalista nascido nas Caldas.

Observando com os "olhos de Ramalho", pode-se reflectir sobre como a vila concretizou parcialmente o sonho do cronista: manteve a "fresca oxigenação" das árvores e a "sociabilidade afectuosa", ganhou museus e espaços culturais, mas nunca se transformou num Baden ou Wiesbaden português – permaneceu autenticamente caldense, privilegiando a identidade local sobre a imitação cosmopolita, equilibrando termalismo terapêutico e criatividade artística naquela síntese que Ramalho intuíra mas não chegara a ver plenamente realizada.