Guiado por um almocreve, atravessara a serra da Falperra, cortada de "fundos barrocais em que a água dos veios que corriam chapinhava contra os estribos de pau", as madressilvas suspensas em grossos festões dos valados musgosos envolvendo os caminhantes. A paisagem nocturna era encantada: cantavam os rouxinóis nas balseiras, das elevações da serra descortinava-se "a imensa paisagem que se desenrola até o mar, banhada pelo luar" que iluminava as casinholas brancas do santuário do Bom Jesus, ouvia-se "o gemer dos pinhais e das vagas, cortado a espaços pelo tilintar dos chocalhos de uma récua de machos".

Encontrou "um vale ameníssimo, coberto de vegetação, ensombrado de carvalhos e de castanheiros, rodeado de campos de milho enquadrados em renques de árvores de que pendem as vinhas, banhado pelas águas do rio Vizela". A povoação dividia-se em duas margens ligadas por ponte de pedra: a Lameira (mais povoada) e o Mourisco, onde Ramalho se alojou "numa pequena casa de um andar, com a sua varanda de pau corrida sob um alpendre e suspensa em esteios de pedra". As Caldas de Vizela integravam então o concelho de Guimarães, sendo conhecidas desde a época romana pelas qualidades medicinais das suas águas, embora só no século XVIII ganhassem nova divulgação científica, seguindo o movimento geral europeu de renovação termal.

O relato de Ramalho sobre as Caldas de Vizela constitui um dos momentos mais líricos e nostálgicos de "Banhos de Caldas e Águas Minerais". Ao contrário das descrições técnicas sobre composição química e propriedades terapêuticas das águas – conformes ao paradigma positivista e higienista da época –, aqui prevalece a evocação sensorial e afectiva. O escritor recorda com pormenor minucioso a primeira manhã: abrindo a janela às seis horas, vê no cercado os galos que "espenejavam-se e cantavam ao sol", os coelhos brancos a gesticular "àvidamente ao pé de um braçado de couves", o rio a passar "entre choupos e castanheiros", o moinho redondo vestido "de musgo e de heras, coberto com um telhado de colmo enegrecido", a água caindo no açude "com um estrépito diligente e alegre".

Na colina oposta, sobre a outra margem, a pequena igreja de S. Miguel das Aves com o campanário caiado, e à varanda da residência paroquial o reitor octogenário – cabelos brancos, barrete de retrós, bata desabotoada, calção curto, meias pretas – acompanhado por uma rapariga de dezoito anos, lenço amarelo de ramagens carmesins cruzado no peito, tranças enroladas na nuca dentro de lenço escarlate "segundo a graciosa moda do sítio", ambos alimentando galinhas, rolas, pombos, pardais e uma grande arara pousada no ombro do padre.

Esta cena possui qualidade quase pictórica, composição visual estudada que evoca a harmonia entre homem e natureza característica da vida rural minhota. Ramalho não oculta que os divertimentos eram parcos – "conversação na botica, no barbeiro, na loja do Bento da ponte" –, mas celebra a autenticidade: partidas de pesca com mingacho, caça às codornizes, passeios à Cascalheira, digressões a Braga, Guimarães, Fafe, romagens ao Bom Jesus, piqueniques, burricadas. A estação prolongava-se "desde o meado do mês de Maio até o fim de Outubro", permitindo aos banhistas uma imersão prolongada naquele vale que representava o oposto absoluto da vida urbana – nenhuma sofisticação cosmopolita, mas genuinidade e serenidade.

Hoje, o visitante de Caldas de Vizela – concelho autónomo desde 1998, com cerca de 24 mil habitantes, economia assente na indústria têxtil, confecções, calçado e termalismo – encontra uma realidade profundamente alterada. As infra-estruturas termais modernizaram-se, a proximidade de Guimarães e Braga integrou a vila na malha urbana do Ave, o turismo termal profissionalizou-se. Mas permanece o vale banhado pelo rio Vizela, permanecem as pontes, persiste a vocação termal milenar.

O património arquitectónico – a antiga Igreja Paroquial de Caldas de São Miguel, a Igreja Matriz de Santo Adrião, a Ponte Velha sobre o Vizela, o Paço de Gominhães – evoca a estrutura secular daquela comunidade que Ramalho conheceu. Observando com os "olhos de Ramalho", convida-se à reflexão sobre o preço da modernização: ganharam-se confortos e eficiência, perdeu-se aquela manhã inaugural onde galos cantavam, pombos bicavam dedos, e o tempo se media pelo estrépito "diligente e alegre" da água caindo no açude.

As Caldas de Vizela permanecem termas, mas já não são aquele vale intocado onde um viajante chegado de noite, guiado por almocreve através da Falperra, descobria ao amanhecer um Portugal ainda plenamente rural, autêntico, anterior à agonia modernizadora que Ramalho pressentiu e documentou com tanta acuidade melancólica.