Em São Miguel de Seide, após a visita do oftalmologista Edmundo Machado que lhe confirmava a cegueira irreversível, Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco disparou um tiro na própria fronte. Tinha 64 anos e deixava uma obra literária que, pela vastidão e diversidade, permanece insuperada em todo o século XIX português: poeta, panfletário, polemista, prefaciador, crítico, tradutor, romancista, dramaturgo, bibliográfo, historiador – cultor de todos os géneros, publicara cinquenta e quatro romances e incontáveis outros textos.
Lisboa, Orfandade e Trás-os-Montes
A controvérsia acompanhava Camilo desde o nascimento. Embora os registos indiquem 1825 como ano em que veio ao mundo na Rua da Rosa, em Lisboa, sendo batizado a 14 de abril na Igreja dos Mártires, o próprio escritor sempre afirmou ter nascido em 1826 – e os contemporâneos assim o reconheciam. Filho natural de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco e Jacinta Rosa, a orfandade chegou-lhe cedo: perdeu a mãe a 6 de fevereiro de 1827 e o pai a 22 de dezembro de 1835.
"Tinha eu nove anos e era órfão", escreveria décadas mais tarde em *No Bom Jesus do Monte* (1864), livro memorialístico. Acompanhado pela irmã Carolina, mais velha, foi levado para Vila Real, para casa da família paterna, acolhendo-se ao abrigo da tia Rita Emília. Frequentara em Lisboa a escola do mestre Minas Júnior, onde tivera como colega o futuro Conde de Ouguela.
Vilarinho da Samardã: Os Primeiros Mestres
Entre 1839 e 1840, em Vilarinho da Samardã, vivendo com a irmã que ali casara com um estudante de medicina, conviveu com o irmão deste, o Padre António José de Azevedo, figura fundamental na sua formação. Este religioso ensinou-lhe os rudimentos da música, os princípios da língua francesa e iniciou-o na leitura dos clássicos: as *Viagens de Ciro*, o *Teatro dos Deuses*, *Os Lusíadas*, as *Peregrinações* de Fernão Mendes Pinto. A vida aldeã e as recordações de infância transmontana perpassariam pelas suas narrativas, todas dotadas, de uma forma ou outra, de cunho autobiográfico ou de relato ficcionado de incidentes a que o escritor assistiu ou lhe foram narrados pelos próprios protagonistas.
O Casamento Precoce e a Vida Boémia Portuense
Com apenas dezasseis anos, em agosto de 1841, casou em Friúme, aldeia do concelho de Ribeira de Pena, com Joaquina Pereira de França, de catorze anos, onde passou a viver trabalhando como escrevente num tabelião. Entretanto perdeu parte da herança paterna. Em 1843 regressou a Vilarinho da Samardã. A filha que nasceu do casamento e a mulher morreram pouco depois, tendo Camilo abandonado ambas.
Em outubro de 1843, no Porto, fez exames em disciplinas de Humanidades e inscreveu-se na Escola Médica e na Academia Politécnica, mas não chegaria a concluir os estudos de medicina. A partir de 1844 começou a viver a vida literária e boémia portuenses, estreando-se como jornalista. Iniciou a publicação de artigos em periódicos da cidade – *O Nacional*, *O Eco Popular*, *O Jornal do Porto*, *A Semana*, *O Portugal*, *O Portuense*, *O Mundo Elegante* –, atividade que nunca mais abandonaria e que exerceria até ao fim da vida.
Assinava inicialmente com as iniciais C.C.B., mas utilizou inúmeros pseudónimos e assinaturas criativas, afirmando-se como poeta, cronista e prosador: Um Académico Conimbricense, Anastácio das Lombrigas, Anacleto dos Coentros, O Antigo Juiz das Almas de Campanhã, José Mendes Enxúndia, Rosário dos Cogumelos, Manuel Coco, João Júnior, Barão de Gregório, entre muitos outros.
Em 1845 publicou *Os Pundonores Desagravados*, poema heroico-burlesco, e em 1847 o drama histórico *Agostinho de Ceuta*. Tentou em 1846 frequentar Direito em Coimbra, projeto gorado por não ter sido admitido na Universidade. Na sequência da revolta da Maria da Fonte, terá combatido ao lado da guerrilha miguelista, o que, segundo alguns biógrafos, lhe valeu a nomeação para amanuense do Governo Civil em Vila Real, mas fugiu da cidade depois de publicar no jornal portuense *O Nacional* duas cartas contra o Governador Civil.
Patrícia, a Cadeia e o Nascimento de
Instalado sozinho no Porto, revelou-se polígrafo de escrita rápida. De regresso a Vila Real, conheceu Patrícia Emília de Barros, com quem fugiu. Acusado de rapto e desvio de dinheiro, Camilo e Patrícia, que viviam maritalmente, foram presos na Cadeia da Relação do Porto. Desta ligação resultou o nascimento de uma filha, Bernardina Amélia, em 1848.
Em 1848 publicou, em folheto sob anonimato (Mandada Imprimir por Um Mendigo), um relato onde estava já presente a figura de narrador que daria o cunho camiliano aos romances e novelas posteriores: *Maria! Não me Mates Que Sou Tua Mãe!*, inspirado num crime ocorrido em Lisboa.
Lisboa, o Clero e os Mistérios
Em 1850 estava de regresso a Lisboa, onde encetou a carreira de polemista com o panfleto *O Clero e o Sr. Alexandre Herculano*, defendendo o amigo escritor. Dizia ser, de profissão, "escritor público". Nesse ano publicou na Imprensa Nacional o seu primeiro romance, *Anátema*, e a escrita de outros romances, bem como a colaboração e fundação de vários jornais, marcaram a sua dedicação total ao ofício da escrita.
Matriculou-se entre 1850 e 1851 no curso de Ciências Teológicas no Porto. Em 1852 foi cofundador do jornal *O Cristianismo*, submeteu-se a exame para obter ordens menores mas, devido à vida aventurosa que até então levara, estas foram-lhe recusadas. Abandonou o curso de Ciências Teológicas – o amor impossível por uma mulher casada quase o levara a abraçar o sacerdócio.
Entre 1853 e 1854 publicou, primeiro em folhetim no diário portuense *O Nacional* e finalmente em volume, *Mistérios de Lisboa*, resposta no panorama da literatura portuguesa a *Les Mystères de Paris* de Eugène Sue (1842-1843). A maior parte dos seus romances seriam publicados inicialmente em folhetim, em periódicos, antes de sair em volume, como era prática na época.
Ana Plácido: O Amor Impossível e a Segunda Prisão
Conhecera Ana Augusta Plácido, casada com Manuel Pinheiro Alves, mulher que se tornaria a sua companheira e musa. A ligação dos dois foi severamente censurada pela sociedade portuense: Ana era casada com um homem respeitado na cidade e cunhada de Bernardo Ferreira, filho da famosa Ferreirinha da Régua. Os escritos de Camilo passaram a ser recusados pelos jornais do Porto, deixando-o sem meios de subsistência.
Viu-se obrigado a concorrer em 1858 ao cargo de segundo bibliotecário da Biblioteca Pública Municipal do Porto, não conseguindo ser admitido, mesmo contando com a proteção de Alexandre Herculano, que nesse ano o propôs para sócio correspondente da Academia Real das Ciências, no intuito de reabilitar o nome do amigo.
Depois de Ana Plácido ter dado à luz um filho, presumivelmente de Camilo, Pinheiro Alves moveu aos dois amantes um processo de adultério. Em 1859 mudaram-se ambos para Lisboa, mas antes do final do ano regressaram ao Porto. Em outubro de 1860, ambos foram presos na Cadeia da Relação do Porto.
Era a segunda estada de Camilo naquela prisão. Desta vez, já escritor consagrado, recebeu visitas do jovem rei D. Pedro V, traduziu várias obras de autores estrangeiros e compôs diversos dos seus mais conhecidos romances. *Amor de Perdição*, escrito em apenas quinze dias (possivelmente perto do final de 1861, com data de 1862 impressa no rosto), "os mais atormentados da [sua] vida", seria considerado por Miguel de Unamuno como a maior obra romântica da Península Ibérica. Escreveu também *Romance dum Homem Rico* e *Doze Casamentos Felizes*. As recordações da Relação ficaram fixadas em *Memórias do Cárcere*, livro no qual deu conta das muitas figuras que ali conheceu, nomeadamente o célebre José do Telhado.
Em outubro de 1861 foi julgado e absolvido.
São Miguel de Seide: O Refúgio e a Escrita Vertiginosa
Depois da absolvição, do nascimento do filho Jorge (1863) e da morte de Pinheiro Alves – que deixou à mulher uma herança em dinheiro e diversos imóveis – os dois mudaram-se em 1864 para a Quinta de São Miguel de Seide, onde nasceu o terceiro filho, Nuno. Esta seria a residência permanente de Camilo até ao fim da vida, em companhia de Ana Plácido. A casa tornar-se-ia o seu refúgio e, mais tarde, o cenário da sua morte trágica.
Camilo continuou a escrever vertiginosamente – chegou a publicar seis romances por ano, para além da colaboração jornalística. Aqui escreveu algumas das suas obras mais marcantes: *Amor de Salvação* (1864), *A Queda de Um Anjo* (1866) – sátira mordaz da vida política portuguesa –, e os romances históricos *O Judeu* (1866) e *O Senhor do Paço de Ninães* (1867), cuja ação se desenrola desde a partida de D. Sebastião para Alcácer-Quibir até às conquistas na Índia.
Nos anos 1870, publicou as célebres *Novelas do Minho* (1875-1877), que o aproximaram da nova escola realista, antes programaticamente inaugurada pelo jovem Eça de Queirós, integrando-o de pleno direito no movimento. Em 1876 publicou um notável *Curso de Literatura Portuguesa*.
As Imitações "Facetas" e a Loucura do Filho
As manifestações de loucura do filho Jorge e as difíceis condições de subsistência obrigaram-no, em 1871, a fazer um primeiro leilão da sua biblioteca. Sucederam-se publicações, sobretudo de traduções adaptadas, sem nome do autor original.
Em 1879 voltou à polémica, desta vez resultante do *Cancioneiro Alegre de Poetas Portugueses e Brasileiros*, antologia cujas críticas lhe valeram resposta no volume *Os Críticos do Cancioneiro Alegre*. Nesse ano publicou *Eusébio Macário* que, com *A Corja* (1880) e *O Senhor Ministro* (publicado em *Narcóticos*), constituíam uma série de imitações "facetas" do estilo naturalista então entrado em voga, apresentando-se com o objetivo de fazer "destroços" "nas pequenas fileiras realistas". *A Brasileira de Prazins* (1882), o último da coleção, é contudo considerado como uma magistral adaptação da já antiga e consagrada escrita camiliana às características do novo programa realista. Num derradeiro romance, *Vulcões de Lama* (1886), ridicularizou a escola realista, pondo em cena diversos tipos da sociedade portuguesa da época.
Os Últimos Anos: O Viscondado e a Cegueira
Depois de vários empenhos, foi feito Visconde de Correia Botelho por lei de 20 de julho de 1885, título concedido pelo rei D. Luís. Foi também nomeado Académico Correspondente da Real Academia Sevillana de Buenas Letras a 1 de abril desse ano. Recebera anteriormente a Ordem da Rosa do Imperador do Brasil, D. Pedro II (1872).
A doença oftálmica que se declarara anos antes piorava progressivamente. Os seus problemas de saúde, especialmente as dificuldades na visão, eram cada vez mais graves. Apesar da consulta cada vez mais assídua a médicos no Porto e em Lisboa, intensificava-se a debilidade do seu estado.
Casou finalmente com Ana Plácido a 9 de março de 1888, depois de décadas de vida em comum. Conseguiu no ano seguinte uma pensão vitalícia para o filho Jorge, cuja loucura era irreversível. Enviou ao amigo Freitas Fortuna uma carta que ele próprio considerava como uma "cláusula testamentária", com disposições sobre o seu "cadáver" e o lugar onde queria ser sepultado.
Em 1889, o escritor que nunca deixara de colaborar e participar na criação de revistas e periódicos fundou com Tomás Ribeiro *O Mensageiro*, cujo número inaugural foi "consagrado a Sua Majestade Imperial o Sr. D. Pedro d'Alcântara". Reuniu um conjunto de textos memorialísticos em *Delitos da Mocidade*.
O Fim Trágico
Segundo J. Viale Moutinho, escrevera ao especialista a solicitar que o visitasse e examinasse com estas palavras: "Sou o cadáver representativo de um nome que teve alguma reputação gloriosa neste país, durante 40 anos de trabalho. Chamo-me Camilo Castelo Branco e estou cego."
Foi sepultado no Porto, no cemitério da Lapa, no jazigo do velho amigo Freitas Fortuna. Na certidão de óbito regista-se que morreu aos 64 anos de idade. *Nas Trevas. Sonetos Sentimentais e Humorísticos* foi o último livro do escritor publicado em vida.
O Legado Imensurável
O escritor que nunca abandonara a atividade jornalística, o polígrafo de escrita vertiginosa, deixava uma obra de cerca de duzentos romances ou novelas, inúmeros artigos, crónicas, textos de divulgação ou crítica de escritores, pintores e compositores, folhetos, folhas volantes, textos prefaciais, vasta correspondência e ainda um bom número de traduções de obras estrangeiras, sobretudo francesas. No romance, género que mais versou, Camilo escreveu na fronteira entre o idealismo romântico (mas já, de certo modo, sob a influência da corrente realista) e a tentativa de alcançar a estética da geração naturalista, primeiro na forma de pastiche estilístico, mais tarde como adesão (embora reativa) ao movimento de que, no íntimo, desdenhava.
A vida turbulenta – marcada por paixões proibidas, prisões, polémicas, dificuldades económicas, tragédias familiares – fundiu-se indissoluvelmente com a obra literária mais vasta e diversificada de todo o século XIX português, deixando um legado que continua a fascinar leitores e estudiosos pela sua intensidade, autenticidade e génio criativo irrepetível.