A obra de Ramalho Ortigão revelou-se um daqueles textos raros que transcendem o seu momento histórico e continuam a operar através das décadas, moldando atitudes, influenciando políticas, educando gerações sucessivas.
O impacto imediato foi considerável. A imprensa da época deu ampla cobertura ao livro, citando-o extensamente, debatendo as suas teses, reproduzindo as suas denúncias mais contundentes. As questões patrimoniais deixavam de se confinar ao círculo restrito dos especialistas e ganhavam visibilidade pública. Era exactamente o que Ramalho pretendera: transformar a preservação do património numa causa nacional, numa questão de consciência cívica que interessasse não apenas aos eruditos mas ao "povo" em geral.
Mas o verdadeiro teste de uma obra não está no ruído que provoca à nascença — está na sua capacidade de continuar a influenciar muito depois de o autor ter morrido. E aqui O Culto da Arte em Portugal passou o teste de forma brilhante. Estudos recentes, particularmente os de Jorge Custódio, demonstraram a importância decisiva deste livro na ideologia patrimonial da I República.
Quando em 1911 o novo regime republicano reorganizou os Serviços Artísticos, criando estruturas mais robustas para a protecção dos monumentos nacionais, as ideias de Ramalho estavam ali, incorporadas nas novas políticas, orientando as novas práticas.
E o próprio Ramalho estava ali também, não apenas como inspirador mas como protagonista activo. Foi eleito presidente do Conselho Superior dos Monumentos Nacionais, organismo que veio substituir a antiga Comissão e que tinha, finalmente, um carácter mais executivo através da criação de uma Comissão Executiva.
Na primeira sessão deste novo Conselho, Ramalho proferiu um discurso que sintetizava todo o seu pensamento, toda a sua luta de décadas: "Os monumentos e os objectos de arte nacional guardam-se unicamente pelo amôr do povo, uma vez acordado para a consciencia e para o orgulho de si mesmo. A missão da arte — e portanto da religião e de poesia — de que nos achamos investidos consiste simplesmente em proteger ensinando a amar." Era a pedagogia patrimonial elevada a programa de governo.
Mas a realidade mostrou-se, como tantas vezes, mais resistente do que as intenções. Ramalho deparou-se com os mesmos obstáculos que denunciara em 1896: falta de verbas, incompetência técnica, inércia burocrática, desacordos internos nas comissões. Os seus pareceres, rigorosos e bem fundamentados, nem sempre eram seguidos. As suas propostas de classificação de monumentos enfrentavam resistências políticas e interesses instalados. A desilusão foi crescendo, levando ao seu afastamento gradual dos trabalhos a partir dos primeiros anos do século XX.
Como observou Marinho da Silva, "o alerta lançado em 1896 apenas se repercutiu cinco décadas depois". Era um prazo longo — demasiado longo para salvar muitos monumentos que entretanto se perderam ou degradaram irreversivelmente. Mas não era demasiado longo à escala histórica. Ramalho semeara, e as gerações seguintes colheram. Joaquim Costa, escrevendo em 1937, reconhecia-o explicitamente: "Se a restauração dos monumentos nacionais não se originou na veemente e calorosa propaganda deste honrado escritor, podemos, contudo, afirmar, sem receio de que nos desmintam, que ela contribuiu largamente para que um dia, embora um pouco mais tarde, se levasse a cabo a mais bela missão de resgate e depuração das nossas antigas vergonhas."
Lições para o presente
A tentação, ao olhar para o pensamento de Ramalho Ortigão mais de um século depois, seria tratá-lo como peça de museu intelectual — admirável pela coragem e pela visão, mas datada, ultrapassada, irrelevante para os desafios contemporâneos. Seria um erro. As questões que Ramalho levantou permanecem surpreendentemente actuais, e as suas respostas continuam a oferecer orientação útil para os dilemas do presente.
A tensão permanente entre preservação e desenvolvimento, que Ramalho viveu agudamente na sua época, não desapareceu — intensificou-se. As pressões sobre os centros históricos hoje são incomparavelmente maiores do que no século XIX: turismo de massa, especulação imobiliária, gentrificação, alterações climáticas. E no entanto, os princípios que Ramalho defendeu — respeito pela autenticidade histórica, necessidade de programas rigorosos de intervenção, primazia da conservação sobre a reconstrução fantasiosa — continuam a ser os únicos capazes de nos orientar através destas pressões.
A questão da identidade e do património, central em Ramalho, também não se esgotou. Vivemos numa época de globalização acelerada, de homogeneização cultural, de perda das especificidades regionais. O risco que Ramalho denunciava — o de Portugal perder a sua "fisionomia própria", de se dissolver numa imitação mal feita de modelos estrangeiros — não desapareceu; transformou-se. Hoje não se trata de imitar o "chalé suíço" ou o "cottage inglês", mas de substituir arquitecturas tradicionais por torres de vidro anónimas que poderiam estar em Xangai, Dubai ou São Paulo.
E a lição de Ramalho continua válida: a identidade cultural não se preserva pelo isolamento xenófobo ou pela recusa das influências externas — Portugal sempre foi, e deve continuar a ser, uma nação aberta às trocas culturais. Mas preserva-se pela capacidade de síntese criativa, pela transformação das influências recebidas num resultado original. A Batalha não era menos portuguesa por ter influências inglesas e flamengas — era mais portuguesa precisamente por ter sabido processá-las de forma única. O mesmo princípio deve orientar-nos hoje.
Mas talvez a lição mais importante de Ramalho seja a que ele repetiu insistentemente ao longo de toda a sua obra: a necessidade de educação patrimonial das populações. "Os monumentos guardam-se pelo amor do povo" — e esse amor não é instintivo, não nasce espontaneamente. Tem de ser cultivado, educado, alimentado pelo conhecimento. Um povo que não conhece a sua história, que não compreende o valor artístico e simbólico dos seus monumentos, não os protegerá. Deixá-los-á degradar por indiferença ou destruirá por ignorância.
Esta lição é ainda mais crucial hoje do que no tempo de Ramalho. Vivemos numa sociedade de gratificação imediata, de obsolescência programada, de atenção fragmentada. A ideia de que algo valha a pena ser preservado durante séculos — não por utilidade prática mas por valor simbólico, estético, histórico — é estranha à lógica dominante. E no entanto é essa ideia, precisamente, que nos distingue de uma sociedade puramente funcional, puramente presentista, puramente materialista.
A educação patrimonial que Ramalho preconizava não era transmissão passiva de factos. Era formação de sensibilidade, cultivo de amor informado, desenvolvimento de capacidade de apreciação. Quando propunha que os monumentos fossem acompanhados de documentação acessível ao "público em geral", quando defendia que a História da Arte deveria ser ensinada a todos e não apenas aos especialistas, estava a propor uma democratização do conhecimento que continua a ser projecto inacabado.
Quantas pessoas visitam hoje a Batalha — ou qualquer outro monumento nacional — com capacidade efectiva de compreender o que estão a ver? Quantas sabem interpretar os estilos arquitectónicos, reconhecer as técnicas de construção, apreciar as subtilezas escultóricas? A maioria passa, tira fotografias, e vai embora com uma vaga impressão de "bonito" mas sem verdadeira compreensão. E sem compreensão não há amor duradouro; só há, na melhor das hipóteses, admiração superficial.
A Batalha como símbolo
E assim voltamos, no final desta jornada, ao ponto de partida: o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, a Batalha, esse "grande livro de mármore" que Ramalho tomou como emblema de tudo o que estava bem e mal na relação dos portugueses com o seu património.
A Batalha sobreviveu. Esta é a primeira coisa a dizer, e não é coisa menor. Sobreviveu aos séculos de abandono que Ramalho denunciou. Sobreviveu às intervenções desastradas dos restauradores oitocentistas. Sobreviveu à indiferença das autoridades e à incompetência dos mestres de obras. Sobreviveu porque a pedra bem trabalhada é mais forte do que a negligência humana, e porque, apesar de tudo, houve sempre pessoas — primeiro D. Fernando II, depois Mousinho de Albuquerque, depois Ramalho e outros — que se recusaram a deixá-la morrer.
Hoje, o Mosteiro da Batalha é Património Mundial da UNESCO. Recebe centenas de milhares de visitantes por ano. É objecto de cuidados científicos de conservação. Tem um centro interpretativo que explica a sua história e arquitectura. As Capelas Imperfeitas, aquela "incomparável jóia" que Ramalho encontrou votada ao abandono, estão consolidadas, limpas, respeitadas. Não foram "completadas" — respeitou-se a sua incompletude histórica, essa abertura ao céu que é parte da sua identidade. Mas foram salvas da ruína que as ameaçava.
É uma vitória. Tardia, parcial, incompleta — como são todas as vitórias humanas. Mas é vitória, e deve ser reconhecida como tal. Ramalho Ortigão, se pudesse ver a Batalha hoje, reconheceria que a sua luta não fora em vão. Demorou um século, exigiu o esforço de gerações sucessivas, custou a perda de muitos outros monumentos que não tiveram a mesma sorte. Mas afinal, o programa que ele defendera — rigor científico nos restauros, respeito pela autenticidade histórica, educação patrimonial do público — acabou por se impor.
A Batalha é, pois, testemunho material da luta pela consciência patrimonial. Cada pedra consolidada, cada escultura limpa, cada visitante que atravessa o portal compreendendo o que vê, é vitória parcial dos ideais oitocentistas de preservação. Não a vitória total, perfeita, definitiva — essa não existe. Mas a vitória possível, a vitória real, a vitória que se vai conquistando dia após dia, geração após geração, através do trabalho paciente e do amor informado.
E talvez seja esta, afinal, a lição derradeira que Ramalho Ortigão nos deixa: que a preservação do património não é acto único, definitivo, que se realiza uma vez e depois está garantido para sempre. É compromisso permanente, responsabilidade que cada geração herda e tem de renovar. Os monumentos são-nos confiados não como propriedade mas como custódia. Recebemo-los das gerações passadas e temos obrigação de os transmitir às gerações futuras em condições pelo menos tão boas quanto aquelas em que os recebemos.
Ramalho cumpriu a sua parte. Acordou a consciência da sua geração, combateu a indiferença do seu tempo, semeou ideias que frutificaram muito depois da sua morte. Agora, no século XXI, cabe-nos a nós continuar o trabalho. Os desafios mudaram de forma mas não de substância. A Batalha continua ali, aberta aos nossos cuidados e à nossa negligência. E o que fizermos com ela — e com todos os outros monumentos, paisagens, objectos, tradições que constituem o nosso património — dirá, às gerações futuras, que tipo de povo fomos.
Ramalho Ortigão escreveu, há mais de um século, que "os monumentos e os objectos de arte nacional guardam-se unicamente pelo amôr do povo, uma vez acordado para a consciencia e para o orgulho de si mesmo". A consciência ele ajudou a despertar. O amor ele ajudou a cultivar. O orgulho ele ajudou a fundamentar, não no mito vazio mas no conhecimento rigoroso. Cabe-nos agora, a nós, seus herdeiros involuntários mas seus devedores conscientes, manter acesa a chama que ele acendeu. A Batalha, com as suas pedras douradas banhadas pela luz do poente, com as suas Capelas Imperfeitas abertas ao céu infinito, está ali como desafio e como promessa. Desafio a sermos dignos do que recebemos. Promessa de que, se o formos, algo de essencial sobreviverá de nós para aqueles que virão depois.