A estrutura, iniciada em 1537 por Francisco de Arruda e concluída apenas em 1622, estendia-se por oito quilómetros desde a Amoreira até à Fonte da Misericórdia, com arcadas sobrepostas atingindo trinta e um metros de altura. Durante um século, sucessivas gerações de elvenses pagaram impostos, acarretaram materiais e ergueram pedra sobre pedra, sabendo que não veriam a obra concluída – trabalhavam para que "bebessem dela os netos dos netos daqueles que de tão longe principiaram a recolhê-la e a canalizá-la".
Mesmo durante as Guerras da Restauração, quando D. João IV ponderar derrubar o aqueduto por razões militares, a população opôs-se e salvou a estrutura, construindo em alternativa uma cisterna subterrânea. O aqueduto funciona no pensamento de Ramalho como antítese perfeita da modernidade liberal oitocentista. O escritor denuncia com veemência: "o egoísmo dos tempos modernos torna-nos incompatíveis com o cometimento de tão grandes obras".
Embora a época contemporânea se vanglorie de ter consagrado pela revolução liberal o "dogma da fraternidade humana", é "fundamentalmente incapaz" de erguer monumentos ao serviço do comum. Falta aos modernos a "alta noção de solidariedade patriótica", o "desapego dos bens de fortuna", a "abnegação" e sobretudo a "fé dos nossos avós". Na arquitectura, "trabalhamos únicamente para nós mesmos, sem cuidados de futuro, sem pensamento de continuidade de raça ou de família". O aqueduto de Elvas torna-se assim "a humilhação e a vergonha do nosso tempo", incapaz de retribuir ao futuro aquilo que deve ao passado.
Hoje, o visitante pode percorrer o Aqueduto da Amoreira, classificado como Monumento Nacional, e observar as quatro arcadas sobrepostas que desafiam ainda a gravidade e o tempo. Seguindo o percurso da água desde a nascente até à cidade, convida-se à reflexão sobre o conceito ramaliano de solidariedade intergeracional: aquelas pedras foram colocadas por mãos que nunca veriam a água correr, para bocas que ainda não tinham nascido.
Observando com os "olhos de Ramalho", pode-se questionar que obras deixa a nossa própria época aos vindouros, e se alguma delas testemunhará, como o aqueduto elvense, a capacidade de pensar para além do imediato, construindo não para nós mas para os "netos dos netos".