A janela não é "portuguesa" por representar Portugal — é portuguesa por encarnar um modo de fazer arte que Ramalho identifica como essência do génio nacional: a capacidade de transgredir todas as normas em nome de uma verdade interior que exige expressão. O que poderia parecer hipérbole patriótica do autor revela-se, se fizermos uma leitura mais atenta, como diagnóstico de uma singularidade estilística e ideológica.
A passagem em que Ramalho descreve a atitude criativa do artista constitui um dos textos mais radicais sobre liberdade artística escritos em Portugal no século XIX. Vale a pena citá-la na íntegra:
"O artista, em plena posse da sua ideia, em completa independência do seu espírito, em inteira liberdade dos seus meios de execução, desdiz todos os votos, abjura todos os princípios, renega todos os cânones, infringe todas as regras, e prescinde de todo o aplauso dos mestres, sufocando nas entranhas da sua própria vaidade a opinião de si mesmo, unicamente porque tem fé na verdade que enuncia, porque concentrou toda a força da sua alma, toda a energia do seu cérebro, toda a paixão do seu sangue, no amor da obra em que ele representa o pensamento que o domina."
A acumulação de verbos é aqui devastadora: desdiz, abjura, renega, infringe, prescinde, sufoca. Não estamos perante uma simples desobediência estilística, mas perante uma insurgência total. O artista manuelino, na leitura de Ramalho, não inova por ignorância ou por incapacidade técnica — pelo contrário, domina plenamente os códigos que decide violar.
A transgressão é consciente, deliberada, "premeditada e acintosa", nas palavras que Ramalho usaria noutro contexto ao falar do carácter "herético" da arquitectura manuelina. E o que torna esta transgressão legítima, até mesmo sagrada, é a fidelidade absoluta a uma "verdade interior" que o artista "tem fé" em enunciar. A liberdade artística não é licença arbitrária; é obediência a uma lei superior à das escolas e dos tratados: a lei da sinceridade expressiva.
Esta concepção aproxima Ramalho, curiosamente, de um romantismo tardio que via no génio individual a fonte primária de toda a criação autêntica. Mas há uma diferença crucial: Ramalho não celebra o individualismo abstrato do artista isolado; celebra um individualismo que é simultaneamente coletivo.
A janela é "estremecidamente portuguesa" precisamente porque o artista, ao obedecer apenas à sua visão interior, acaba por dar voz a energias nacionais profundas que nenhuma preceptiva académica poderia codificar. É este paradoxo — a liberdade individual como via de acesso ao inconsciente colectivo — que confere coerência à teoria estética de Ramalho.