Perante esta dupla ruína — a ruína física dos monumentos e a ruína moral da nação que os abandonava —, Ramalho podia ter escolhido o lamento nostálgico paralisante que se compraz em contemplar o esplendor perdido. Escolheu, pelo contrário, a pedagogia combativa. Ensinava que o património não é relíquia morta a preservar em redoma de vidro, mas memória viva que interpela o presente e condiciona o futuro.

A janela de Tomar não serve apenas para nos informar sobre o que Portugal foi no século XVI; serve sobretudo para nos interrogar sobre o que Portugal é — e pode ser — nos séculos XX e XXI. Quando Ramalho insistia que a grandeza da arte manuelina resultara da liberdade criativa dos artistas, da sua coragem em transgredir os cânones, não estava apenas a fazer história da arte. Estava a formular um programa político e cultural para o seu tempo: Portugal só recuperaria vitalidade se reencontrasse a capacidade de inovar, de se reinventar, de ter "fé na verdade" que enuncia mesmo quando essa verdade incomoda as ortodoxias dominantes.

A lição permanece válida, talvez ainda mais urgente numa época em que as pressões para a conformidade — económica, cultural, estética — são infinitamente mais sofisticadas e insidiosas do que no século XIX. Entre esses pareceres, destacava-se um sobre o Mosteiro da Batalha e as intervenções de restauro ali realizadas. O documento, inicialmente técnico, expandiu-se numa reflexão muito mais ampla sobre a condição da arte portuguesa na contemporaneidade.

Em 1896, Ramalho publicou esse trabalho com o título O Culto da Arte em Portugal, dedicando-o à Comissão dos Monumentos Nacionais. A obra tornar-se-ia o mais importante manifesto oitocentista de defesa do património em Portugal, influenciando gerações de arquitectos, historiadores e conservadores, e mantendo-se relevante mesmo durante o Estado Novo, décadas depois da morte do autor.

O texto de mais de cem páginas não era apenas um diagnóstico da situação do património artístico e histórico português — era um grito de alarme. Ramalho denunciava o "lamentável estado das artes em Portugal", fruto da indiferença e da ignorância de uma nação moderna incapaz de preservar as obras do seu passado. Influenciado por uma vasta lista de leituras — desde Alexandre Herculano, Possidónio da Silva e Gabriel Pereira, no contexto português, até Chateaubriand, Raczynski, Victor Hugo, Viollet-le-Duc e Ruskin, no europeu —, Ramalho propunha soluções concretas: a inventariação sistemática do património móvel com fichas descritivas, a educação artística do povo, e a criação de uma verdadeira História da Arte em Portugal assente em bases científicas.

O objectivo último era pedagógico: "Os monumentos e os objectos de arte nacional guardam-se unicamente pelo amôr do povo, uma vez acordado para a consciencia e para o orgulho de si mesmo." Para Ramalho, a missão era clara: "proteger ensinando a amar". Só através da educação patrimonial se poderia salvar a "Tradição" — esse conjunto de elementos que constituía a verdadeira alma da nação, e que hoje designamos simplesmente por Património.

O contexto histórico da publicação

A publicação de O Culto da Arte em Portugal em 1896 não surgiu por acaso. Inscrevia-se num contexto histórico específico, marcado pelo trauma nacional do Ultimato inglês de 1890. Quando a Grã-Bretanha exigiu que Portugal abandonasse os seus territórios entre Angola e Moçambique, o país viu-se ferido no orgulho e confrontado com a sua fragilidade política e militar. A reacção foi imediata: por todo o país geraram-se manifestações de desagravo, desde as altas individualidades às autarquias locais, num surto de nacionalismo que abrangeu todos os sectores da sociedade portuguesa.

A crise de 1890 acentuou as tensões políticas e sociais já existentes e precipitou a progressiva ruína da monarquia constitucional, que se revelava impotente perante o novo rumo dos acontecimentos. O partido republicano, em crescimento desde os anos 70, encontrou nesta conjuntura o momento fulcral para fazer passar a sua mensagem em prol do "ressurgimento de uma identidade nacional". Mas o sentimento nacionalista que então despertou não era apenas político — era também, e sobretudo, cultural. A defesa do património era, pois, simultaneamente científica, estética e patriótica.

A actualidade desta mensagem é perturbadora. Mais de um século após a morte de Ramalho, continuamos a debater as mesmas questões: como preservar o património sem o mumificar? Como torná-lo acessível sem o banalizar? Como financiar a conservação em épocas de austeridade orçamental? Como educar as populações para reconhecerem valor naquilo que herdaram? Como evitar que os "restauros" contemporâneos — movidos por imperativos turísticos ou por noções equivocadas de "autenticidade" — repitam os erros que Ramalho denunciou há cento e trinta anos?

A janela de Tomar, classificada pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade em 1983, beneficia hoje de protecção legal e de recursos financeiros que Ramalho nunca imaginou. E contudo, a questão de fundo permanece: o que fazemos, enquanto sociedade, com a memória que herdámos?