Os folhetins juvenis do Jornal do Porto, escritos entre 1859 e 1868, são ainda artificiais e pouco expressivos quando comparados com textos da sua fase mais madura, como o prefácio que escreveu para a edição monumental do Amor de Perdição. Mas foi em Lisboa, longe da cidade natal e amadurecido pela experiência das Farpas, que Ramalho atingiu os traços de rigor, colorido e elegância que se tornaram tão caraterísticos do seu estilo.

Esta evolução estilística não foi acidental. A mudança para Lisboa em 1868, a convivência com Eça de Queirós e o círculo das Conferências do Casino, a publicação mensal das Farpas — tudo contribuiu para libertar Ramalho da prosa descolorida dos primeiros tempos. Mas foi sobretudo a distância — temporal e espacial — que lhe permitiu transfigurar em arte as suas memórias do Porto.

A cidade que Ramalho descreve nas suas obras maduras não é já a cidade que o jovem folhetinista via quotidianamente, mas sim uma cidade recriada pela nostalgia, iluminada pela imaginação e fixada numa prosa de aguda perfeição plástica.

Basta ler a descrição da inauguração da Ponte de D. Maria Pia, no volume XV das Farpas, para compreendermos o alcance desta transformação estilística:

Um delicioso dia de outono, de um largo tom lácteo e cerúleo como o de uma pérola azul, abraçava amorosamente a natureza e banhava a paisagem numa luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das violetas.

As Farpas XV

A cidade surge aqui como uma visão quase impressionista:

Víamos a ridente colina de Vilar, coberta de verdura e coroada pelo Palácio de Cristal, os copas dos bosques do Candal e de Vale de Amores; o cais da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pitoresco mercado de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol.

As Farpas XV

Onde cada edifício ganha personalidade própria:

(...) uns bem aprumados, tesos, vidrosos, reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios, enodoados, fazendo finca-pé, para não cambalearem como ébrios taciturnos; outros, ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de cor de rosa (...) jucundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas abertas ornadas de craveiros e de alecrins.

As Farpas XV

O detalhe realista

Como cronista do Porto oitocentista, Ramalho Ortigão permanece insubstituível. Nenhum outro escritor nos deixou um retrato tão completo e multifacetado da cidade naquele período crucial de transformação.

Nas suas páginas encontramos as grandes cerimónias públicas e os acontecimentos políticos do Porto, mas também os pormenores insignificantes que constituem a verdadeira substância da vida quotidiana: o martelar dos latoeiros na Bainharia, o cheiro a adega na Reboleira, os podengos adormecidos na Rua das Hortas, o ruído das ferraduras dos burros subindo a Rua do Almada aos sábados. É esta atenção ao detalhe concreto, unida à capacidade de síntese panorâmica, que faz de Ramalho um mestre da prosa descritiva portuguesa.

Em defesa do património

A actualidade do olhar de Ramalho Ortigão surpreende quem hoje o lê. As suas preocupações com a defesa do património anteciparam em décadas os movimentos de conservação patrimonial do século XX. A sua crítica à destruição dos arcos medievais, à demolição das ruas antigas, à substituição do casario tradicional por construções banais, ressoa ainda hoje em debates urbanísticos contemporâneos.

O seu lamento pela perda da identidade cultural, pelo desaparecimento dos costumes locais, pela uniformização cosmopolita, ecoa as inquietações actuais face à globalização. E a sua visão da Foz do Douro — aquela tensão entre autenticidade piscatória e subúrbio burguês — antecipou fenómenos que o turismo de massas do século XX tornaria universais.

Arqueologia literária

Para o viajante que hoje percorre o Porto, os textos de Ramalho Ortigão oferecem uma experiência única: a possibilidade de ver a cidade em profundidade temporal, de compreender o que subsiste e o que desapareceu, de reconhecer sob as transformações modernas os traços da cidade oitocentista.

Caminhar pela Ribeira ou subir as escadas que levam à Sé torna-se um exercício de arqueologia literária quando conhecemos as descrições de Ramalho. E mesmo as zonas mais transformadas — a Foz urbanizada, as ruas alargadas do centro — ganham espessura histórica quando as confrontamos com as evocações do escritor.

Um Porto de contradições

Ler Ramalho Ortigão é, afinal, uma forma privilegiada de conhecer o Porto. Não certamente o Porto turístico das panorâmicas e dos monumentos classificados, mas o Porto vivido, o Porto das tensões entre tradição e progresso, o Porto das contradições entre provincianismo e cosmopolitismo.

É também uma forma de compreender como a literatura pode transfigurar a realidade, como a memória pessoal pode converter-se em memória colectiva, como a distância pode transformar o banal em poético. O Porto de Ramalho Ortigão é simultaneamente uma cidade real, documentada com rigor quase sociológico, e uma cidade imaginária, recriada pela arte.

É nesta dupla condição — de documento histórico e de obra de arte — que reside o valor dos seus textos sobre a cidade que o viu nascer e que ele, ao escrever sobre ela, ajudou a imortalizar.