O percurso era perigoso — no Rego de Chave, o carreiro aberto sobre o abismo era tão estreito que os cavaleiros desmontavam, e mais de uma récua de mulas se despenhou pelas escarpas. Atravessara a Gralheira, Manhouce e Albergaria das Cabras, dormindo em palheiros sobre colmo ou nas estrebarias, ao bafo morno dos cavalos enquanto o vento da serra assobiava pelas fendas.

A paisagem era agreste e melancólica: pequenas capelas fortificadas, rebanhos amarelados conduzidos por pastores de calções de pele de cabra, velhas casas senhoriais abandonadas com brasões esmoucados e pátios cobertos de urtigas. Era Setembro, o sol mordia nas planícies, mas no alto dos montes a neblina era espessa e penetrante. Chegou com a pele dolorida e os lábios gretados — e então descobriu o paraíso: um vale abrigado pelo monte Lafão, de temperatura tépida, refrigerado pelo Vouga que corria em quedas sucessivas, com casas agradáveis e uma hospedaria onde dormiu em boa cama e lhe serviram "um delicioso prato de pimentos com batatas e tomate, excelente vinho e uvas incomparáveis".

O Contraste como Método Literário

O episódio de São Pedro do Sul funciona como microcosmo da estratégia narrativa de Ramalho: a construção de contrastes violentos que revelam verdades sobre o carácter nacional e a condição humana. A dureza da serra — onde a vida se desenrola num ritmo ancestral, entre mitos de cabras que matam lobos e santos que transportam brasas nas mãos — surge como provação necessária para que o viajante possa verdadeiramente apreciar a amenidade do vale. Não é acaso que Ramalho empregue uma gradação emocional deliberada: a descrição da jornada acumula desconfortos físicos e perigos concretos até ao momento da chegada, quando a linguagem se torna quase lírica ("Que refrigério! que grande amenidade! que brandura!").

Esta técnica do contraste atravessa toda "As Praias de Portugal": entre passado glorioso e presente medíocre, entre natureza intocada e progresso artificial, entre autenticidade rural e cosmopolitismo postiço. Em São Pedro do Sul, contudo, o contraste não é melancólico — é redentor. O vale representa aquilo que a modernização ainda não corrompeu: hospitalidade genuína, produtos locais autênticos, uma relação harmoniosa entre homem e natureza. As uvas de Viseu não são apenas superiores às do Douro "para comer" — são símbolo de uma riqueza verdadeira, baseada na qualidade e não na ostentação, na substância e não na fama.

Entre Serras e Séculos

Hoje, o visitante que chega a São Pedro do Sul já não enfrenta os perigos do Rego de Chave nem dorme em palheiros — mas continua a descobrir um vale abrigado entre as serras da Arada, Gralheira e São Macário, onde o Vouga ainda corre em quedas sucessivas e a temperatura permanece amena. As aldeias de xisto como Manhouce, outrora "a mais portuguesa de Portugal", preservam tradições etnográficas que Ramalho reconheceria: o cabrito assado da Gralheira, o presunto e a broa caseira, a aguardente e o vinho verde de Lafões.

O turismo rural permite hoje experimentar aquela "gentil franqueza dos povos serranos" que o cronista elogiou, ficando em casas tradicionais ou percorrendo trilhos de montanha. Observando com "olhos de Ramalho", note-se o que permanece para além das mudanças superficiais: a geometria do vale protegido entre montes, o som das águas, a generosidade da terra que ainda produz "uvas incomparáveis".

E sobretudo, aquele contraste fundador — entre a aspereza da serra e a brandura do vale — que continua a definir a experiência de quem aqui chega após atravessar as alturas. São Pedro do Sul permanece, afinal, um refrigério: não paraíso perdido que só existe na memória, mas lugar concreto onde a harmonia entre homem e natureza resiste, teimosamente, ao ruído dos tempos novos.