Descrito por muitos como detentor de poderes sobrenaturais, este eremita voluntário atraía peregrinações de intelectuais de toda a Europa. O seu nome verdadeiro era Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, mas o mundo conhecê-lo-ia como Teixeira de Pascoaes.

Raízes Aristocráticas e Uma Infância de Solidão

Nascido a 8 de novembro de 1877 na freguesia de São Gonçalo, em Amarante, era o segundo de sete filhos de João Pereira Teixeira de Vasconcelos – juiz, deputado às Cortes e agricultor abastado de notável cultura – e de Carlota Guedes Monteiro. A família pertencia à aristocracia rural com raízes profundas naquela região nortenha.

Desde criança revelou-se diferente dos irmãos. Enquanto um deles, João, partiria para África e escreveria "Memórias Dum Caçador de Elefantes", o pequeno Joaquim era "cabisbaixo, sisudo, com uns olhos tristes e espantados" – como ele próprio se descreveria. O universo da sua infância resumia-se a "um pobre campanário de pedra, cercado de três casebres e oliveiras, com um sino sentimental que chora todas as tardes e por todos os que morrem".

Era uma criança solitária, introvertida, mergulhada numa contemplação nostálgica da Natureza que se tornaria a tónica de toda a sua existência.

O Estudante Monástico de Coimbra

Em 1883, aos seis anos, iniciou os estudos primários em Amarante. Quatro anos depois, em 1887, ingressou no Liceu da mesma vila – e não foi aluno brilhante, chegando mesmo a reprovar em Português, irónico destino para quem viria a ser considerado um dos maiores poetas da língua. Antes de partir para Coimbra, já publicara no Porto, em 1895, o seu primeiro livro: "Embriões". Nesse ano mudou-se para a cidade universitária para concluir os estudos secundários e, em 1896, matriculou-se no curso de Direito da Universidade de Coimbra.

Contrariando a tradição boémia dos estudantes coimbrãos, Pascoaes viveu monasticamente, confinado ao quarto, entregue aos livros, aos papéis e às ruminações de quem "não fora feito para este mundo". Durante o período académico, publicou "Bello" (duas partes, em 1896 e 1897), "Sempre" (1898) e "Terra Proibida" (1899) – obras que já prenunciavam o sonambulismo lírico, o alheamento dos outros homens e o sentimento religioso das coisas que tornariam inconfundível a sua poesia.

Licenciou-se em 1901, mas o seu coração "apenas palpitava pela virgem que nunca existiu e de que tinha saudades, vaga aspiração de azul e de inocência". O verdadeiro amor de Pascoaes dirigia-se à natureza, ao silêncio, ao mistério, aos fantasmas.

O Duelo entre o Poeta e o Jurista

Relutantemente, estabeleceu-se como advogado, primeiro em Amarante e, a partir de 1906, no Porto. Em 1911, aceitou a nomeação para juiz substituto em Amarante, cargo que exerceu durante dois anos. Em 1913, com visível alívio, encerrou definitivamente a carreira judicial.

Sobre esta década penosa, diria mais tarde: "Eu era um Dr. Joaquim na boca de toda a gente. Precisava de honrar o título. Entre o poeta natural e o bacharel à força, ia começar um duelo que durou dez anos, tanto como o cerco de Tróia e a formatura de João de Deus."

Era um proprietário abastado e não necessitava de trabalhar para se sustentar. Instalou-se então no solar familiar em Gatão, com a mãe e outros membros da família, dedicando-se à gestão das terras, à leitura, à escrita e, sobretudo, à contemplação incansável da Serra do Marão.

O Profeta do Saudosismo

Com António Sérgio e Raul Proença, liderou o movimento da Renascença Portuguesa, lançando em 1910, no Porto, juntamente com Leonardo Coimbra e Jaime Cortesão, a revista "A Águia" – principal órgão do movimento. Entre 1912 e 1916, dirigiu esta publicação, onde divulgou a sua filosofia do saudosismo.

Para Pascoaes, a Saudade não era mero sentimento de nostalgia – era a própria condição ontológica (isto é, relativa à natureza do ser) universal de toda a existência. Defendia que a saudade permeava tanto o ser humano como a natureza e até o próprio Deus, numa visão panteísta (que vê o divino presente em toda a natureza) onde Deus habita a criação para redimir uma queda inerente ao próprio divino.

Pretendia estabelecer a saudade como "expressão superior da alma portuguesa", nas suas duas vertentes: lembrança e desejo. Obras como "A Arte de Ser Português" (1915) e "Os Poetas Lusíadas" (1919) consolidaram este pensamento, fazendo dele um dos mais importantes pensadores contemporâneos da Portugalidade.

O Eremita que Recebia o Mundo

Apesar da vida solitária, Gatão transformou-se em local de peregrinação. Intelectuais e artistas, nacionais e estrangeiros, visitavam-no frequentemente, atraídos pela sua presença lunar e fantasmática, pela sua "silenciosa atalaia planetária".

Manteve uma profunda amizade epistolar com Frei Bernardo de Vasconcelos, jovem monge beneditino que era seu parente. Nunca se encontraram pessoalmente, mas Pascoaes diria numa carta à irmã que Frei Bernardo foi "o maior e mais perfeito amigo que Deus me concedeu".

Em 1918, proferiu uma palestra em Barcelona ao lado de Eugenio d'Ors. Em 1923, visitou a prestigiada Residencia de Estudiantes em Madrid, alcançando notoriedade entre escritores como García Lorca, com quem trocou cartões postais e livros dedicados. Cultivou amizade profunda com Miguel de Unamuno e com lusófilos como Ignasi de Ribera i Rovira e Fernando Maristany y Guasch, que traduziram e divulgaram amplamente a sua poesia em Espanha nos anos vinte.

A Galiza abraçou-o como poeta próprio. Vicente Risco afirmaria, após a sua morte, que "a Galiza o pranteou como se fosse dela", reconhecendo-lhe o mérito de revelar a saudade galega. Uma rua na Corunha leva hoje o seu nome.

A Difícil Relação com Pessoa

Fernando Pessoa definiu-o como "um dos maiores poetas vivos e o maior poeta lírico da Europa de hoje". Porém, Pascoaes desconfiava de Pessoa, considerando-o "pouco ou nada poeta". Este retribuiu a hostilidade, acusando-o de "sofrer de pouca arte" e prestando-lhe apenas "uma correcta deferência fria como a veneração devida aos grandes deuses mortos".

Apesar das vozes poéticas de Junqueiro e António Nobre (que Pascoaes, ironicamente, considerava "a nossa maior poetisa"), diferia deles por construir "frases mais amplas, mais repousadas, ao sabor clássico", sendo "quase sempre simples e directo, moderado nas metáforas", parecendo "anterior aos simbolistas pela claridade e pureza das formas".

Reconhecimentos e Últimos Anos

Em 1923, foi eleito para a Academia das Ciências de Lisboa. Em 1951, recebeu homenagem da Academia de Coimbra. A sua poesia foi traduzida para várias línguas e elogiada por pares insignes. Nos últimos anos de vida, travou amizade com poetas mais jovens como Eugénio de Andrade e Mário Cesariny de Vasconcelos. Este último elegê-lo-ia como poeta superior a Fernando Pessoa, organizando nos anos 70 e 80 a reedição de vários textos e uma antologia poética.

Miguel Torga, seu "irmão" literário mais novo, defini-lo-ia assim: "Teixeira de Pascoaes é o trágico aedo existencial da nossa condição de exilados da realidade, de encobertos no descoberto, de perseguidores de imagens."

O Fim de Um Místico

Faleceu a 14 de dezembro de 1952, aos setenta e cinco anos, em Gatão, vítima de bacilose pulmonar (tuberculose nos pulmões), alguns meses após a morte da mãe. O corpo repousa num jazigo no cemitério em frente à Igreja de São João Baptista de Gatão.

A campa é rasa e traz inscritos versos que o próprio autor propositadamente escreveu para ali figurarem, síntese perfeita de uma existência que se consumiu na contemplação e na palavra: "Apagado de tanta luz que deu Frio de tanto calor que derramou"

Para o viajante curioso: Ao visitar Amarante e as aldeias circundantes, procure o solar de Gatão onde Pascoaes viveu durante décadas. A Serra do Marão continua ali, imponente e lunar, testemunha silenciosa das contemplações de um poeta que tentou expressar o inexprimível. Segundo Domingos Monteiro, a poesia de Pascoaes é "a mais bela tentativa de expressão do inexprimível que nos últimos dois séculos se realizou em Portugal". O cemitério onde repousa, em frente à pequena igreja de Gatão, é lugar de serenidade e beleza discreta – digno final para quem fez da saudade não apenas tema literário, mas filosofia de vida.