A grande abundância de granito explorado nos arredores permite calçar as ruas com pedras "indestrutíveis, dando ao pavimento uma superfície lisa como a de um muro de cantaria". Não há eléctricos, não há botequins ruidosos, não há cartazes nas esquinas, não há realejos, não há lixo, não há moscas, não se vê polícia.

A Praça da República – edificada por D. Manuel para festas públicas – preserva "um lindo ar de Renascença" com o seu chafariz quinhentista e a fachada histórica do Palácio da Misericórdia, obra-prima renascentista do arquitecto João Lopes com as suas cariátides e azulejos de Policarpo de Oliveira Bernardes. Pelas ruas estreitas e contorcidas da antiga vila, "belos arcos de portas e janelas" no "interessante estilo meio gótico meio muçulmano ou mourisco" que caracteriza a arquitectura manuelina.

Nos conventos de Santa Cruz (onde viveu e morreu o arcebispo Frei Bartolomeu dos Mártires) e de São Domingos (que ele edificou), "secou e emudeceu o antigo correr de água" que embalava o recolhimento monástico, perdeu-se "o eco das sandálias da comunidade à hora canónica das rezas". Mas o porto perdera "toda a importância dos antigos tempos com a decadência geral do nosso comércio marítimo": do movimento das caravelas do famoso corsário Pero Galego e do mareante João Álvares Fagundes – descobridor dos bancos da Terra Nova para pescas do bacalhau –, do largo trato marítimo dos séculos XV e XVI quando "a nobreza de Viana, fazendo excepção à do resto do País, imitava os burgueses venezianos e genoveses no exercício do comércio", nada restava "senão alguns vestígios arqueológicos da antiga confraria dos mareantes".

O relato de Ramalho sobre Viana articula dois registos aparentemente contraditórios: celebração estética e diagnóstico económico fatal. Por um lado, elogia a beleza serena, o asseio rigoroso, o "vago perfume de arte" nas solidões austeras dos conventos, o jardim público junto do cais ("certamente o mais bem situado do País"), o "interessante estilo" manuelino que testemunha grandezas passadas. Por outro, decreta sem apelo: "reduzida presentemente ao seu pequeno comércio de consumo interior, Viana é uma cidade morta para a labutação mercantil". Esta sentença revela o pensamento económico de Ramalho: cidades portuárias sem comércio marítimo activo não têm futuro produtivo. Mas o cronista, num movimento dialéctico característico, transforma o diagnóstico fúnebre em receita turística: "daí, pelo lado estético, uma boa parte do seu encanto de terra de vilegiatura e de prazer".

E então surge a proposta visionária: "um estabelecimento de banhos, um casino, um grande hotel e alguns cottages mobilados para alugar, sobre a praia, na margem esquerda do rio, e esta seria decerto uma das mais bonitas estações balneares de toda a Europa". Ramalho intui o potencial turístico de Viana – o rio Lima, a proximidade do mar, a arquitectura renascentista, o clima ameno, a paisagem entre o vale verdejante e a serra de Santa Luzia – e imagina transformar a "cidade morta" mercantil numa estância balnear europeia. A proposta não se concretizaria nos termos que Ramalho projectou, mas antecipa por décadas o desenvolvimento turístico do século XX.

Hoje, o visitante de Viana do Castelo encontra uma cidade que equilibra memória e modernização. A Praça da República permanece intacta – o Chafariz quinhentista com a esfera armilar, a Casa dos Paços do Concelho medieval, a Casa da Misericórdia renascentista com as suas vinte e uma cariátides. O Santuário de Santa Luzia, construído em 1926 segundo projecto de Ventura Terra, cumpriu parcialmente o sonho de Ramalho de fazer de Viana destino turístico, embora por via da peregrinação religiosa e não do termalismo balnear. A Ponte Eiffel (inaugurada em 1878, poucos anos após a visita de Ramalho) continua a dar passagem sobre o Lima.

Os conventos onde "secou e emudeceu" a água monástica preservam aquele "vago perfume de arte" que o cronista pressentiu. Observando com os "olhos de Ramalho", pode-se reflectir sobre como a cidade soube transformar a "morte" comercial em vocação cultural e turística sem perder a "modéstia, simplicidade, silêncio e asseio" que tanto impressionaram o visitante oitocentista. Viana não se tornou Wiesbaden nem Trouville, mas permaneceu autenticamente vianense – entre o mar e o rio, entre a memória dos mareantes que descobriram o Atlântico e os visitantes contemporâneos que descobrem, ainda hoje, aquele "lindo ar de Renascença" que o tempo não conseguiu apagar completamente.